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Missing
Quem não viu o filme Missing deixou de assistir um espetáculo de excepcional qualidade, que trata do desaparecimento de pessoas extirpadas do convÃvio com seus familiares pelo poder da força impostos na América Latina, sob orientação da CIA norte-americana, a pretexto de erradicar o comunismo e as tendências esquerdistas, a partir de execuções criminosas, degradantes e inconcebÃveis como execução autoritária de qualquer fase da história.
A dor de quem teve repentinamente, que conviver com a ausência de pessoa querida é retratada no filme, na personagem de um pai norte-americano que procura, em vão, reconstituir os últimos passos da filha e o noivo, desaparecidos no Chile, após Pinochet tomar o poder. A perversidade de uma elite que se imaginou com o poder de varrer ideologias contrárias e anti-americanas, instalou confissões forçadas pela tortura, além da impetração da punição fantasmagórica. Os supostos inimigos iam desaparecendo, alguns jogados ao mar, no "vôo da despedida" que consistia em drogar e amarrar a vitima atada a um peso que as mantinha submersas nas penumbras da última morada do terror. Nunca o poder fora exercido com tal dimensão de loucura ou tamanha demonstração de menosprezo à espécie humana.
O propósito da história que segue, não é o de restabelecer este tipo de memória, pois, os “holocaustos” ainda vão acompanhar a espécie humana, até que ela encontre a Razão como forma de conduta designada para identificar a espécie humana. A lembrança do "missing" serve para alertar sobre o sofrimento do abandono, que se acerca de criaturas proscritas, incluindo animais que perdem seus lares e são postos a vaguear pelas ruas, farejando migalhas, convivendo com o fantasma do abandono.
É comum presenciar pais desmiolados, que adotam animais, principalmente cachorros e gatos, presenteando crianças mimadas, para as quais os bichinhos são entregues, na condição de objeto de uso e abuso.
Ao contrário de bichos que se vinculam a casa, amam e são amados, os bichos ingressos em forma de presentinhos, logo, passam a ser problemas, pois, não são capazes de, por si só, apreender a higiene necessária e, quando pouco atendidos, revoltam-se e destroem móveis e utensÃlios, reivindicando o direito à alimentação, à saúde e ao amor dos donos. A solução imediata tende a ser o abandono, em lugar longÃnquo, onde não se proporcione a oportunidade de regresso ao "lar".
O Serafim é um gato sem raça definida, porém, lindo como a maioria dos bichanos desta irmandade. É o personagem da nossa história que conviveu seguidos capÃtulos de um "missing" que o envolveu. Desde pequeno, conviveu uma anciã, seu filho e esposa. Recebeu os cuidados que um bicho de estimação costuma receber. Carinho não lhe faltou, pois, vivia no colo da dona, além de ter a liberdade de usufruir do ambiente da casa que melhor se lhe oferecesse. Um dia ela faleceu, mas o Serafim logo acercou-se do carinho de seu filho, não menos atencioso, garantindo a continuidade de tantos momentos felizes.
Quis o destino que seu dono fosse acometido de enfermidade grave que em menos de um ano, levasse-o para outro mundo. Como vizinhos acompanhamos aquela fase dos vai-e-vem da casa para o hospital e vice-versa, até a chegada do momento final.
A viúva mudou de residência e não a vimos mais. Passados dois ou três meses, minha nora deparou-se com o Serafim, junto à porta da casa do falecido. Sucessivas vezes longa e interminável espera o mantinha junto à porta de entrada, onde aguardava sem que existisse alguém para lhe proporcionar o ingresso no lar.
Ao constatar a persistência do Serafim, do lado de fora das grades que cercavam a frente, minha nora repetidas vezes, chamava-o pelo nome e colocava alimento no espaço interior. Nunca teve sucesso e não conseguiu a companhia do teimoso gato, que mostrou que não conhecia nada sobre o destino e a solidão. Apesar de se manter vigilante e insistir na tentativa de agregar o Serafim, só conseguiu foi contemplar o esforço de quem mantém a idéia fixa de voltar ao mundo em que se manteve rodeado de atenção e carinho.
A solução foi o contato com pessoas, ocasião em que o veredicto foi o de que o Serafim não voltaria ao convÃvio de nenhum dos remanescentes. O jeito trazer o Serafim e, cerca-lo de atenções na tentativa de que ele adotasse as pessoas da casa, já que, o contrário parecia impossÃvel. Recebia alimento, carinho, zelo especial, (sempre com certo grau de recusas) pois, emocionava-nos saber que ele não era um ingrato. Vivia o estado de espÃrito da ausência, marcada pelas idas e vindas à antiga moradia, onde teimava em esperar vigilante.
A verdade é que o Serafim não aceitava nossa casa como seu novo lar, apesar de reconhecer sua dependência em ter que aproveitar momentos de abrigo e o indispensável alimento da sobrevivência. Os momentos de afago e as tentativas de conquista-lo pelo carinho costumavam ser repelidos depois de alguns segundos. Às vezes se mostrava revoltado, volvendo a cabeça e ameaçando morder. Parecia se tratar de uma intolerância descabida, mas... a gente nunca sabe o que um gato pode estar "pensando".
Uma três ou quatro vezes sumiu da zona. A procura pelas quadras e locais possÃveis de ser localizado e por toda a vizinhança não resultou em nada. Quando sua ausência começava a ser reconhecida o Serafim reaparecia com fome desesperadora e extremo cansaço, comendo de modo afoito para, em seguida, recolher-se em uma canto isolado onde tirava muitas horas de sono.
Na sua última fuga, permaneceu desaparecido, por quase dez dias. Quando já nos convencêramos do sumiço definitivo, reapareceu em terreno baldio das proximidades. Estava totalmente sem forças, agachado, com olhando-nos sem atender aos chamados insistentes. Demonstrou ter percorrido longa distância e parou ali num último esforço para a chegada. Fomos obrigados a invadir o local e, no colo, traze-lo de volta ao lar. Ele se encontrava debilitado, em estado lastimável de fraqueza.
Constatou-se que o Serafim, além da falta de alimentação, contraÃra uma cistite rebelde. Seu tratamento implicou em mantê-lo em um quarto exclusivo, sob chave, a fim de que não se evadisse e, na friagem da rua, estragasse o tratamento, pois, sabidamente, na primeira oportunidade, ele se colocaria "na estrada", uma vez que se tornara notÃvago e ambulante desde que perdera seu antigo lar.
Sua cura ocorreu em aproximadamente duas semanas, porém, resolvemos mantê-lo mais alguns dias no isolamento. Recebia água e comida, além de instalações higiênicas adequadas. Gozava da preocupação geral devotada ao eterno ausente e isto ajudava no sentido de estar sempre contando com visitas assÃduas e demonstrações de carinho. Finalmente, ficou concebido que ele deveria voltar a ser livre. Desta vez tratando de viver a sua vida, sem que se quer sua volta à noite voltasse a ser aguardada.
A decisão foi acertada. O Serafim agregou-se ao novo lar. Hoje, só dorme na rua em noites de muito calor. Ao observar a luz do quarto superior onde eu e minha mulher dormimos, no pavimento superior da casa, sobe pelo telhado e mia dengoso para que a janela seja aberta. É uma festa sentir que não há "missing". Estamos curados do mais cruel sofrimento que acomete pessoas e animais: a separação.
Fiel ao amor pelos donos o cão e o gato retratam o valor da troca de afeição, colocando este tipo de sentimento, no mais elevado degrau da hierarquia dos sentidos.
Alex
08/06/2008
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