. . . Seu Cachorro .
 
  Raças Fotos Curiosidades Nomes de Cães Dicas Jogos Adoção História de Usuário
Fotos Engraçadas Hospedagem de Cães Fórum Contato Cadastro
 
   
 
  .
   
. . .
.  
O Cão e o Dono
A história de meu cão é bem simples, mas sinto necessidade de contá-la para alguma pessoa. Já tentei contar, mas ela se torna triste porque o animal de estimação traz, em certos momentos, um semblante silencioso e inocente, transferindo através de olhar afetivo o poder de influenciar aqueles com os quais convive. Acho que esta coluna é o melhor caminho, até mesmo porque é uma forma de eu prestigiar a Buba, cadela de porte médio, que nos seus onze anos com nossa família, conquistou a todos que a conheceram, sem ser um cachorro atraente, faceiro ou raça pura.

Ela era dotada de predicados, não reconhecíveis com muita facilidade. Era um “cusco” com mistura de Rot-Weiller (?), de porte médio e um latido forte, de som claro. Agia com muita rapidez, na verdade quando algum alimento.(salsicha, por exemplo) era jogado entre a Buba e seus 3 outros companheiros da casa era ela sempre a primeira a abocanhar. Viveu metade da sua vida em Porto Alegre, no apartamento de um casal moço, minha filha e esposo e, dois filhos, ainda crianças. Foi adotada engatinhando crescendo rodeada de carinho, numa convivência de repetida troca de afeições, característica que mais a marcou, embora eu só o tenha notado, depois que ela passou a conviver longo tempo em minha casa. O “vozerão” dela a deixava vaidosa, pois, costumava latir alto, com persistência e ritmo, sempre que observava alguma coisa que ela julgasse importante. Para seu azar, foi justamente esse latido forte o principal motivo de seus primeiros donos se obrigarem a transferi-la para minha casa> Residindo em apartamento não sabiam o que fazer para contemporizar eventos vindos com reclamações e acusações de intolerância à presença da cadela. As críticas eram de que ela alterava o sossego do condomínio e isto e passou a ser um problema sem solução..

Meus dois netos criaram uma dinâmica de brinquedos que envolvia a casa inteira, tendo a Buba com centro da divertida seqüência da extremosa vibração infantil. Davam uma folga à vizinhança quando em fins-de-semana ou férias iam para a casa da praia. Também se beneficiavam aproveitando o espaço do pátio da casa térrea, e a liberdade que os unia sob à luz do sol, aos frescor dos dias que alegravam o ambiente do balneário. Porém, ao retorno, recomeçava todo o enredo da novela., pois, ano à ano a cachorrinha se tornava mais adulta, de presença mais saliente e, pior ainda, Influenciada pelas crianças, foi adotando um comportamento de cachorra auto-determinada, espontânea e liberal, extremamente dócil e amorosa, porém, em relação ao ambiente externo, às vezes passava dos limites próprios de quem deseja de uma cão, silêncio, obediência e recolhimento. Isso ela não fazia, pois, não fora criada com estes tipos de limitações.

Uma destas demonstrações de grosseria condicionada pelo aprendizado infantil recebido, ocorria sempre que avistava qualquer pessoa da sua estima. Ao avistar pessoa da família costumava entrar em desabalada velocidade ao seu encontro e, vigorosamente, jogava seu corpo sobre o indivíduo, calcando as patas dianteiras no peito da pessoa. Era um pulo sem defesa, pois, tudo o que podia ser feito era tentar amortecer um pouco o choque. Ao começar a corrida ao encontro do recém chegado, já se ouvia a preocupação de quem iniciava o pedido ( que ela nunca atendia) ... “Pára, Buba ! ...não! ...não!” e bum! ...acontecia o choque. O impacto sacudia, e marcava a “vítima” do festivo encontro – não raro – deixando a roupa limpa do indivíduo com suas patas dianteiras impressas. Era uma incomparável manifestação de carinho, num estilo maroto de quem se criou brindando sob alegria da companhia infantil. Na verdade ela fazia isto de forma muito jovial mesmo. Jogar o corpo sobre o recém chagado era uma explosão de inimitável alegria.

Vigorosa, ágil e barulhenta, a Buba não pode ser mantida no apartamento, pois, a vizinhança reclamava os latidos fortes e os “canifobos” transformaram a presença dela num convívio difícil, acompanhado de lamentos e pedidos de exclusão. Não houve outro modo de resolver o impasse senão o de transferi-la de residência. Foi por este motivo que veio morar comigo, minha esposa e três outros cães, a bem dizer, sua nova família. O abandono não foi brutal, pois, além de ser nossa conhecida antiga, voltava ao convívio dos antigos donos quando nas férias na casa da praia, ou mesmo aos fins-de-semana, quando se reencontravam matavam a saudade e convivendo juntos por dias consecutivos.

A sua aclimatação no novo lar não foi de muita dificuldade, pois, sentia ter conquistado espaço maior, ganho amizade de três outros cães e a liberdade de quem sai da prisão de um apartamento na capital do Estado. Somado a isto ela sempre contou com o afeto, meu e de minha esposa, de resto, de todos os nossos familiares, que sempre valorizaram a vida animal.

Na verdade, o sentimento canino de saudade é muito forte. Durante meses, aos sábados, pela manhã, ela se acomodava no canto dianteiro da tela de nossa casa, a espera da chegada de seus antigos amigos. Quando não estava de plantão e gritávamos o nome do neto: “Olha o Xandi!” ela “zunia” para o canto da tela que dava para a direção da chegada deles. Quando do regresso deles, novamente acomodava-se junto à tela, de certo, entristecida com a saudade logo começando a remoer no seu interior.

Com o passar do tempo descobri que ela possuía comportamento pensava existir somente em algumas pessoas, nunca em cães. Por exemplo: Ela era séria no modo de agir e de interpretar as coisas. Não gostava de ser enganada, pois, não atendia brincadeiras de desdém ou pouco caso. Era zelosa com todos os pertences da moradia, do portão ao último reduto, acompanhava qualquer visitante, a ponto de segui-lo inclusive na saída, quando terminada a visita. Quando o visitante saía, latia forte como parecendo dizer: Não volta mais! ... ou, nunca soube certo: ... foi um prazer! Acredito que exagerava nos cuidados, pois não era de índole agressiva. Ameaçava, mas nunca mordeu ninguém. Impunha respeito, mas era de “diálogo” pois, estranhos e gente em geral, solicitavam que a acorrentássemos para ingressar no quintal, pois, seu latido assustava. Causava medo dado seu modo de latir compassado, sem tirar os olhos da direção do indivíduo.

Seu processo de comunicação não deixava dúvidas. Costumava dar três latidos e um espaço, que se repetiam no mesmo tom e no mesmo ritmo, até que se concluísse seu objetivo. Durante os anos em que ela esteve conosco não foi preciso colocar campainha na cerca da frente, apesar da casa ter sido construída com recuo de quase vinte metros. Junto à tela, e voltada para o visitante (carteiro, conhecido, etc.) ela ritmava os três latidos, até que algum de nós atendesse o chamado. Se não acorrêssemos indo atender o chamado, ela vinha à janela da casa, como que preocupada pela demora. De brincadeira sempre havia alguém da vizinhança que lhe dizia: “Vai lá chamar!” ... e ela ia...

A Buba era pelo Direito e por isso exigia que seus direitos fossem respeitados. Se acaso faltasse água ou alimento para os quatro, era ela que latia na janela. Permanecia o tempo que fosse necessário no ritmo dos três latidos. Enquanto o alimento ou água não fosse reposto era não parava de latir. Nenhum dos outros fazia a mesma exigência. Minha esposa costumava dizer: - “É preciso ver o que está faltando, pois quem está latindo é a Buba!” Dito e feito; alguma falha havia sido cometida.

Séria e amorosa, a Buba tinha grande sensibilidade. Quando eu ou minha esposa saíamos, ela chorava aos uivos e normalmente ficava numa das esquinas do cercado de tela até divisar, de bem longe, nosso retorno. Logo se iniciava a corrida e o pulo com as patas dianteiras. Nunca foi possível corrigi-la.

Certo dia, em dezembro de 2007, a Buba se prostrou doente e o veterinário colocou-a em observação, terminando por hospitalizá-la. Foi diagnosticada a presença de câncer em estado adiantado e, em seguida hemorragia e infecção, Recebidos os resultados dos exames clínicos o diagnóstico indicava que o organismo apresentava falência de órgãos vitais. Estava condenada, em estado de fraqueza e certamente dores. Possibilidades de recuperação submetida a cirurgia, segundo seu veterinário, praticamente nenhuma. O conselho era a prática da eutanásia.

Sem outra saída, após consultar minha filha, voltei para autorizar o sacrifício do animal. Angustiado, compareci ao local, tendo sido explicado detalhadamente sobre os procedimentos na hora fatal, “...ela recebe anestesia e, após poucos minutos relaxa e dorme - A etapa seguinte é injetar a dose letal”.

Como havia um paciente no consultório, pedi que o atendesse antes de se voltar para o procedimento autorizado. Solicitei que me cedessem uma cadeira e, à frente do canil, sentei-me, trazendo-a para junto de minhas pernas. Seu estado era precário. Ficou de pé, escorada em mim e eu lhe fazia carinho, com os dedos desenhando caminhos em seus pelos. Ela me sentia e parecia conformada, com relativa segurança pela presença do dono amigo. Sob soro, há dias, esquálida e sem forças, não conseguiu passar mais de dez minutos de pé. Deitou-se aos meus, encostou a barriga e até o queixo no chão e ficou imóvel. Seus olhos tinham perdido o brilho. Ela sabia o que estava por acontecer. Continuei a acariciando por duas horas, pois, o veterinário teve problemas e não cumpriu o horário. Mesmo assim, o tempo passou rápido, pois, quando os canais se abrem para o jorro das lágrimas, entra-se num mundo diferente.

A imaginação de quem chora diante do que nada pode ser feito é o contato com o destino. Não há como identificar qual o tipo de fato que mais percorre pelos caminhos da imaginação. De uma coisa tenha certeza. Estivemos juntos, vivendo carinhosamente, cada minuto que se passava. O apego e a abundante vertente corria tão forte que o veterinário, na hora fatal, resolveu se certificar da decisão. Colocou a agulha no local da injeção e, parado, perguntou: “Continuo ?”. – Sim, respondi” concluindo a amarga missão da minha vida.

A passagem da Buba se tornou um evento que eu não poderia deixar de contar, porque lembra um tempo muito distante. Há muitos anos, em conversa com meu Irmão, naturalista, perguntei-lhe se seria recomendável ter um animal de estimação junto às crianças, no lar ? – Ele assegurou-me que um cão, além de bom companheiro e amigo, ajuda em muito na educação dos filhos, destacado a propriedade de sua duração média de 16 anos, auxiliar a compreender o tempo como o principal fundamento da vida.

Nesta passagem da Buba, senti a importância do ensinamento recebido. O modo de como me interessava pela existência de pessoas e coisas era irreal e não caracterizava o segredo da vida. Nos derradeiros momentos em que nossa companheira nos abandonava entendi como é fatal a obrigação de ser e de não ser.

Ênio Borsatto - Cidreira/RS

19/04/2008

  .
. . . .
. . .
 
Copright © Borsatto