. . . Seu Cachorro .
 
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Meu querido cachorrinho
Decorridos quase 70 anos, os lances de minha infância, acendem e apagam ligeiro. Algumas emoções permanecem mais tempo, talvez por terem sido fortes manifestações de alegria, como poderosas sempre são as motivações que fazem vibrar a alma infantil. A imagem de meu cão Jota, permaneceu forte na minha memória , porque ele soube me amar com toda a sua espontaneidade de cachorro, sem nunca nada pedir e sem tampouco prometer coisa alguma.

O Jota era um ratoneiro, também conhecido como “ lingüiça “ de pernas curtas e corpo comprido. Era uma fera quando brincava de “lutinha”, na grama que se espalhava na frente de casa. Sentia-me um herói combatente e ousava apertar meu ante-braço, com força, esgaçando sua boca, de tal modo que o Jota não conseguia firmar a mordida. Rosnava, sacudia a cabeça e tentava sair do golpe. Eu o mantinha imobilizado por alguns segundos, com meu braço no interior da boca e a cabeça apertada no chão. Aos meus seis anos, tinha certeza de que era um vitorioso, assim como tinha certeza de que o Jota eram um lutador forte que não desistia nunca. Eu amava o Jota e o Jota também me amava.

Nós praticávamos lutinhas na grama e fazíamos outras brincadeiras cheias de energia, como a mania que ele desenvolveu, de pular alto, tentando abocanhar qualquer pano que fosse abanado a sua frente.O desempenho dele era extraordinário, pois chegava a pular alto, mais ou menos na altura do meu peito. Tira para cá, tira para lá, corre de um lado para o outro e o Jota era incansável correndo para pegar o pano que era acenado diante dos seus olhos.. Terminava vencendo, Qualquer falha na rapidez da retirada do pano e quack! ... o Jota fechava seus caninos com força e ninguém mais faria ele largar o trapo da brincadeira. Se puxasse, ele era arrastado e não largava. Era seu brinquedo preferido e gostava tanto que bastava abanar um lenço ou um trapo na frente dele que o brinquedo imediatamente se iniciava.

Além da certeza que tenho, que o Jota dedicou-me grande parte da sua vida, também, sei que foi ele quem, cedo, me ensinou o valor da amizade doada de modo espontâneo.

Mas o Jota era tão amado por todos, que, nunca deixava de receber carinho e atenção da vizinhança, nem de acompanhar nossa pequena família (minha vó, meu irmão e a querida empregada que era inarredável de nosso convívio integral) . Certo dia eu e meu irmão ficamos aos cuidados da empregada e minha vó, junto com outras idosas, foram ao “circo do Janguta” - espetáculo circense de extrema pobreza, composto por uma dúzia de figurantes. O circo tinha o palhaço Janguta e seus compadres, como espetáculo de boa atração pública. As vovós e a criançada deliravam com as palhaçadas, sobrecarregadas de sons de tiros e barulhos confusos. Gritarias e corre-corre eram cenas que mexiam com a platéia.

Ao voltar para casa, minha vó e companhias, ainda deliravam de tanto rir, principalmente quando tentavam contar cenas cômicas do Janguta. Foi expectativa cheia de ansiedade, até dominarem as emoções e começar a falar sobre o extraordinário evento. Vovó contou que Janguta e o outro palhaço, discutiam e se ameaçavam, em desentendimento para cobrança de uma antiga dívida do Janguta para seu companheiro de cena. A certa altura o credor, aos berros, mandou o Janguta se retirar. Deu-lhes aqueles tapas sonorizados com as mãos, empurrou-o e repetia. Fora! Fora! O Janguta sacou um enorme lenço e chorando, foi saindo da casa.

Eis que, quando o lenço foi movimentado – de algum lugar qualquer (a vó acredita que tenha sido por causa das frestas existentes entre a lona e o chão), em desabalada disparada, surgia o Jota! Imediatamente abocanhando o trapo que o Janguta tinha às mãos. O Janguta puxava, puxava e o Jota não largava. Minha vó quase teve um troço: - É o Jota dizia ela! É sim, meu deus! É o Jota! O palhaço, velho interprete circense, ao sentir que a cena estava agradando a platéia inteira, fazia de conta que o número havia sido treinado e gritava! Eu vou pagar, mas tira ele daqui! E o Jota sempre firme puxando o pano do Janguta. O Jota roubou o espetáculo. O circo explodiu de tanto riso. Minha vó confessou que não conseguiu agüentar a cena. Fez xixi nas calças..

Hoje, passadas sete décadas, o Jota, às vezes, passa entre as falhas das lonas da minha memória para reanimar meu projeto de avaliação da vida. É só insistir um pouco, que me sinto abraçado ao Jota, brinco, ele pula, corre, sinto seu pelo, seus músculos e suas pequenas patas... tudo é jocoso, assim como, estranho é o modo de como se faz e desfaz tanta coisa que jamais poderia deixar de existir. O Jota é uma delas.

Gilberto Santos

12/04/2008

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